“Todo amor que houver nessa vida…”

E de repente eu recebo em meus braços todo amor que sempre quis nessa vida… Todo sentimento que entre lágrimas eu suplicava a Deus em minhas preces depois de cada coração magoado, depois de cada decepção.

– Talvez ele não tivesse vindo antes por eu não estar preparada (penso eu).

Mas agora eu sou tão madura! Dou os melhores conselhos, penso coisas bem melhores da vida, estou pronta pra amar sem preconceitos (pelo menos é o que acho)… Então porque toda essa trava? Falta de costume de receber amor dessa forma? Será que eu só pedia por não saber o que era e agora que eu sinto sua densidade, seu peso, seu sabor, eu não curti o gosto? Ah, mas é tão docinho, tão quentinho…. Deixa eu degustar mais um pouco, quem sabe vire meu prato preferido…

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A receita

E neste exato momento eu sinto uma batedeira dentro do meu estômago. Ela deve estar fazendo um bolo dos mais caprichados, porque não para de funcionar um só instante. Como é que desliga isso, cadê o botão? Alguém tira da tomada, pelo amor de Deus!

Náuseas, náuseas e mais náuseas. Não só pelo vinho de ontem, nem pelos toques, nem por ter quebrado uma barreira  e não enxergar o caminho de volta. Eu não tenho a receita, e é isso que mais me angustia. Como a batedeira vai fazer o trabalho certo dentro de mim se não sei a receita da vida? E é justamente isso que preciso preparar agora: minha vida. Mas porque essa dúvida quanto à receita; o que me faz recuar? Medo do que possa vir por ai? Aquela mania de perfeição, o fato de querer misturar ao meu lado os melhores ingredientes do mercado pra que a obra saia perfeita? Aquela mania fútil de querer para si o corpo mais lindo, o coração mais lindo, o homem mais lindo? Perfeição não existe, mocinha. E sua hora de fantasiar, de acreditar em contos de fada com o príncipe mais lindo, gentil e fiel já passou, e a muito já passou… E eis que agora acho o príncipe mais gentil, mais protetor, o colo mais acolhedor, medo de que?

Aumentaram a velocidade, tá quase ficando pronto. Tenho que ir, preciso decidir se esse bolo vai ser assado ou se prefiro esperar pelo próximo confeiteiro.

Amizade…

Amizade, amizade, amizade… Como perceber quando aquela tênue linhazinha de interdição se rompe e os sentimentos começam a se misturar no estômago como em um liquidificador? É o que tô tentando descobrir no meio desse turbilhão…

Acho que no último ano eu fui a pessoa mais requisitada do planeta para dar conselhos em fins de relacionamento. Creio que estou especialista em ser só. Chega, cansei de ser seca.

Sobre a arte dos (des)encontros.

Ela pegava todo dia, na mesma hora, o mesmo trem para ir ao trabalho.

Ele também.

Trabalhavam a quatro quarteirões um do outro.

O expediente dele terminava meia hora depois do dela, mas ainda assim, às vezes se topavam na estação, sem notar um ao outro.

Ela freqüentava toda quarta-feira à noite um supermercado no centro da cidade, onde os preços caem pela metade e as verduras e frutas estão sempre fresquinhas.

Ele vai no mesmo, sempre que se dá conta de que já não há quase comida nenhuma em casa – às vezes isso acontece às quartas-feiras.

Todas as sextas depois do trabalho ela ia a um badalado pub com as amigas, tomar uns drinks e descontrair.

Ele, especialmente na sexta passada, foi ao mesmo bar com um amigo que estava mal por descobrir a traição da namorada (agora ex).

Ela é auto-suficiente e decidida, mas espera um dia encontrar sua “outra metade” – acredita piamente no amor, apesar de algumas decepções.

Ele tem relacionamentos inconstantes, às vezes com uma só, às vezes com mais de uma, mas a verdade é que se sente vazio com toda essa montanha-russa.

Eles enfim se conheceram numa festa de um amigo em comum. Olharam-se com certa admiração escondida no fundo dos olhos, mas suas mentes ocupadas com problemas profissionais e o ambiente tumultuado da festa não os deixaram perceber que eram metades que deveriam se completar para suprir seus anseios… Almas-gêmeas sim, que se procuravam por toda a vida. Mas eles não perceberam, e então se deram um “muito prazer” e um “adeus”, e foram embora da festa – ele primeiro que ela.

Nunca mais se viram, pois ela resolveu largar tudo e ir pro exterior encontrar uma razão para sua vida.

Que pena… A razão estava todo dia a quatro quarteirões de distância.

Gabriela Brandão

Triste?

E me perguntam se eu estou triste? Até pra estar triste é preciso alguma motivação… Eu não tenho motivo pra estar triste, eu não tenho motivo pra sorrir, não tenho motivo pra nada…