Sobre a arte dos (des)encontros.

Ela pegava todo dia, na mesma hora, o mesmo trem para ir ao trabalho.

Ele também.

Trabalhavam a quatro quarteirões um do outro.

O expediente dele terminava meia hora depois do dela, mas ainda assim, às vezes se topavam na estação, sem notar um ao outro.

Ela freqüentava toda quarta-feira à noite um supermercado no centro da cidade, onde os preços caem pela metade e as verduras e frutas estão sempre fresquinhas.

Ele vai no mesmo, sempre que se dá conta de que já não há quase comida nenhuma em casa – às vezes isso acontece às quartas-feiras.

Todas as sextas depois do trabalho ela ia a um badalado pub com as amigas, tomar uns drinks e descontrair.

Ele, especialmente na sexta passada, foi ao mesmo bar com um amigo que estava mal por descobrir a traição da namorada (agora ex).

Ela é auto-suficiente e decidida, mas espera um dia encontrar sua “outra metade” – acredita piamente no amor, apesar de algumas decepções.

Ele tem relacionamentos inconstantes, às vezes com uma só, às vezes com mais de uma, mas a verdade é que se sente vazio com toda essa montanha-russa.

Eles enfim se conheceram numa festa de um amigo em comum. Olharam-se com certa admiração escondida no fundo dos olhos, mas suas mentes ocupadas com problemas profissionais e o ambiente tumultuado da festa não os deixaram perceber que eram metades que deveriam se completar para suprir seus anseios… Almas-gêmeas sim, que se procuravam por toda a vida. Mas eles não perceberam, e então se deram um “muito prazer” e um “adeus”, e foram embora da festa – ele primeiro que ela.

Nunca mais se viram, pois ela resolveu largar tudo e ir pro exterior encontrar uma razão para sua vida.

Que pena… A razão estava todo dia a quatro quarteirões de distância.

Gabriela Brandão

Triste?

E me perguntam se eu estou triste? Até pra estar triste é preciso alguma motivação… Eu não tenho motivo pra estar triste, eu não tenho motivo pra sorrir, não tenho motivo pra nada…

Um cheiro, uma memória.

Tenho memória olfativa. Certos cheiros me lembram pessoas que passaram por minha vida… amigos, ex-namorados… E trazem à tona momentos bons, como se na hora, eu os tivesse revivendo… Engraçado, com você não tenho isso… Porque tudo, a todo momento, me trás você à memória.

Gabriela Brandão

Caio F, sempre.

“Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: “Ei, não quer ir no parque? A temporada ta acabando…” Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.

– Caio F

“Então, não perca seu tempo comigo. Eu não sou um corpo que você achou na noite. Eu não sou uma boca que precisa ser beijada por outra qualquer. Eu não preciso do seu dinheiro. Muito menos do seu carro. Mas, talvez, eu precise dos seus braços fortes. Das suas mãos quentes. Do seu colo pra eu me deitar. Do seu conselho quando meu lado menina não souber o que fazer do meu futuro. Eu não vou te pedir nada. Não vou te cobrar aquilo que você não pode me dar. Mas uma coisa, eu exijo. Quando estiver comigo, seja todo você. Corpo e alma. Às vezes, mais alma. Às vezes, mais corpo. Mas, por favor, não me apareça pela metade. Não me venha com falsas promessas. Eu não me iludo com presentes caros. Não, eu não estou à venda. Eu não quero saber onde você mora. Desde que você saiba o caminho da minha casa. Eu não quero saber quanto você ganha. Quero saber se ganha o dia quando está comigo.”

–  Caio F

Que te dizer? (Caio F)

Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia na rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural – se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como minha possibilidade de paz – a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito.

Caio Fernando Abreu

Quero todos os livros do Caio. TODOS. Porque não há nada que ele tenha escrito que eu não entenda perfeitamente.